Estreias de Escrita

Publico hoje a estreia  da minha escrita no jornal online mediotejo.net.

http://www.mediotejo.net/macao-devolvido-o-silencio-a-anta-da-foz-do-rio-frio/

À DESCOBERTA | DEVOLVIDO O SILÊNCIO À ANTA DA FOZ DO RIO FRIO

MAÇÃO1-640x360

Sobre um trilho marcado pela ausência de erva e sulcos de pneus, o jipe pintado com gravuras rupestres procura contornar da melhor forma as poças do caminho. Sara Cura, ao volante, trás consigo um grupo de alunos do ITM, Instituto Terra e Memória e Centro de Estudos Superiores sediado em Mação, onde decorrem Cursos de Mestrado e Doutoramento em virtude de protocolos com o Instituto Politécnico de Tomar (IPT) e diversas universidades espanholas, francesas e italianas.

O trilho termina na base de uma pequena elevação, o jipe pára e o abrir das portas é antecedido pelo ajeitar dos casacos e gorros. O primeiro olhar vai para um conjunto de pedras mudas dispostas em círculo, no ponto mais elevado do local: a Anta da Foz do Rio Frio. Em segundos, o grupo percepciona o carácter contemplativo deste lugar. Aproximam-se, mas Cauê agacha-se e aponta com o dedo uma zona do chão com a terra revolvida. Pergunta em inglês que marcas são aquelas. Movidos pela observação, todos se debruçam para ver o esgravato deixado por um javali, “naturalmente à procura das bolotas que caem dos azevinhos” sombrios, responde José Rocha, antigo autarca na região e um apaixonado pelo território.

MAÇÃO2-681x383
Foto: DR

A luz já se mostra difusa, pelo que Sara apressa o grupo. Sara Cura, técnica superior do Museu de Mação, é também professora adjunta por convite do Instituto Politécnico de Tomar. Doutorou-se na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro mas é em Mação que se sente em casa. Dá aulas nos Cursos de Mestrado Erasmus Mundus de Arqueologia e Arte Rupestre do IPT. Hoje a aula é ao ar livre, o tema é o monumento megalítico conhecido como Anta da Foz do Rio Frio e Sara, antes de iniciar a aula, só quer saber em quantas línguas precisa de falar para que todos a entendam.

Escolhido o idioma, Sara inicia a aula e prende a atenção de quem escuta em português. Laura e Blade abandonam o círculo e aproveitam para tirar fotografias. É difícil ficar parado, com os pés a arrefecer sobre a pedra.

Dentro do espaço da Anta, Sara explica a forma circular, quem a construiu e usou, e há quanto tempo tudo aconteceu: “O que hoje aqui encontramos é apenas o esqueleto do monumento. Os esteios que se distribuem em círculo e ladeiam o pequeno corredor de entrada, seriam o suporte de uma grande laje de pedra que cobria a câmara. Tudo seria coberto com terra e consolidado com pedras, formando o que chamamos de mamoa − privando o bolso da sua mão direita, usa gestos alargados para falar da orientação do corredor de entrada nestes espaços − era baixo, obrigando a uma entrada em posição de rastejar e sempre direccionado para o nascer-do-sol. Mas também há estudos que ligam essa orientação às estrelas”.

Cauê, agora sem os óculos escuros, interrompe e relata um exemplo de mamoas existentes em latitudes mais a norte, “cuja entrada era orientada para permitir receber a maior luz apenas no dia de solstício de verão”. Para Cauê, natural de Santa Catarina, Brasil, esta é a primeira vez que se encontra a visitar um monumento megalítico. Está em Portugal desde Setembro e voltará para o Brasil no último dia do ano. “Vou passar a virada do ano no avião!”, graceja este estudante de mestrado em arqueologia, e que vê neste curso uma mais valia para a sua actividade profissional. Trabalha numa empresa de arqueologia preventiva e licenciamento de obras. Escolheu este mestrado com base na experiência relatada por colegas brasileiros, “que já trilharam este percurso”, afirma Cauê.

Sara fala das intervenções sofridas pelo monumento: esta é uma das poucas mamoas que não desapareceu, pois os povos usavam estas lajes para lhes dar outros usos. Falta a pedra da cobertura. Quanto aos esteios, que apalpa procurando apoio, encontram-se restauros nalguns deles. Feita nos anos 80 com o objectivo de consolidar algumas das pedras do monumento, “podemos afirmar que não foi a melhor das intervenções”, desabafa Sara.

Fazendo deslizar a mão sobre um desses “remendos em cimento”, Paula Cabral apura o olhar. Paula está a fazer um estágio de 4 meses e este último tem sido passado em Mação. Com 27 anos de idade, é licenciada em geografia pela Universidade de S.Paulo, e está a fazer um mestrado internacional na mesma área, abordando temáticas muito diversas, que tanto podem ser sobre os índios Caiapós e Guarani, como de monumentos megalíticos. Em breve voltará ao Brasil pois está “cheia de saudades do calor de S. Paulo”.

MAÇÃO3-768x576
Foto: DR

Virados para o lado nascente do Tejo, Laura e Blade embebem a calma do lugar e trocam sorrisos comprometidos. À sua frente, o chão inclina-se quase a pique, numa vertente ocupada por copas alinhadas nos mais variados tons de verde, e que termina nas águas curvas do rio. Tudo é amplo. Sara termina a primeira parte da visita e chama-os reiniciando a aula, agora em inglês.

Com um ar aparentemente distraído, Sara esgravata o chão com a ponta da bota: ”O chão que agora se vê, forrado com estas pedras, não é certamente o da câmara e corredor originais. Seria em terra, pois estes monumentos, que só se encontram na Europa, serviam para enterramentos.” Blade questiona sobre escavações anteriores, se não havia objectos que contassem mais sobre a história da Anta. Na realidade, a intervenção sobre o monumento nos anos 80 revelou a presença de peças de cerâmica, pontas de projétil em pedra, machados de pedra polida e placas de xisto. “Ora nós sabemos que estas placas são peças feitas para os mortos, pelo que podemos afirmar que se encontram sinais de ocupação neolítica e calcolítica, ou seja, 7000 a 4000 anos de ocupação”, acrescenta Sara.

E ossadas? – pergunta Laura, enroscada num grosso cachecol, com um sotaque que denuncia a sua nacionalidade francesa. Não é possível encontrar ossadas. Os solos, demasiado ácidos, não deixam testemunho dos momentos da sua ocupação, nem do número de humanos que aqui tivessem sido sepultados. Laura, uma jovem de 21 anos, veio de Lyon. Depois de procurar via  internet um curso de mestrado em arqueologia, escolheu vir para Mação. De início ficou em choque e não esconde o desalento dos primeiros dias: ”Vila pequena, com pouca gente, pelo menos quando comparo com o sítio de onde venho. Esperava encontrar uma comunidade de estudantes e um movimento maior. Mas agora está tudo bem!”, pois conheceu Blade, o seu novo companheiro (risos comprometidos de ambos).

O barulho do “trem passando” desloca a atenção do grupo para a distante margem do rio Tejo, onde assenta a linha da Beira-Baixa. Percebem que a posição da Anta não é de modo nenhum aleatória. “Permitia o controlo da paisagem” explica Sara, mais uma vez acentuando a beleza do sítio, principalmente no nascer-do-sol. E, embora em muitos monumentos megalíticos as lages usadas na construção sejam provenientes de locais muito distanciados, neste caso não. “Vera Moleiro foi uma das nossas estudantes que na sua tese recolheu lâminas delgadas das pedras dos esteios e dos afloramentos rochosos no território envolvente. A análise microscópica das amostras revelou a proveniência próxima da matéria- prima.”

Cauê, conversando com José, repara no caudal do rio, que diz “parecer-lhe pequeno”. José é rápido a responder: Já foi grande. Os espanhóis tiram-lhe a água!. Sara junta-se à conversa. Passou a sua infância em Vila Nova da Barquinha, à beira do mesmo rio, e conta a naturalidade com que se viviam as cheias anuais, onde as casas tinham argolas ferradas nas paredes para prender os barcos. Apontando para uma das curvas do Tejo, José aproveita e relata o desaparecido transporte de passageiros por barca, presa a um cabo de aço, entre as margens do rio, para que as pessoas do além-tejo pudessem apanhar o comboio.

O sol, atingindo o limite da sua fraqueza, exige que se tirem as últimas fotos. José e Cauê apanham do chão as metades das bolotas e montam-nas para mostrar o original. “Podem-se comer?”, pergunta Blade. Era alimento na pré-história, diz Sara. E José acrescenta: eu já provei como se fosse castanha, mas é um pouco áspero. Não é muito agradável… A conversa deriva para as oliveiras, que estão carregadas de azeitona. Blade, que veio em Outubro para o curso de mestrado, é natural da Etiópia e conta que nunca tinha comido azeitonas. Descobriu-as nos restaurantes da vila. Blade ajeita a sweat-shirt tentando, sem sucesso, suportar o vento que intensifica.

bolotas-e-cogumelos-681x383
Bolotas e cogumelos. Foto: DR

O grupo finaliza a aula perpetuando a experiência numa selfie, mas com a Anta em pano-de-fundo.

Afastam-se em direcção ao jipe. Há que percorrer o trilho Lithos em sentido inverso. E o silêncio agora devolvido ao monumento megalítico, mostra o quanto este local é um grito na paisagem, eleito sabiamente pelos primeiros habitantes destas margens do rio Tejo.

Como José poetizou: da minha Aldeia, eu vejo todo o resto do mundo!

MAÇÃO-4_1

Anúncios